Empresas brasileiras de software que faturam em moeda estrangeira por meio de contratos internacionais de licenciamento e prestação de serviço buscam antecipar esses recebíveis para sustentar investimentos em expansão internacional
A exportação de serviços de tecnologia, que inclui desde o licenciamento internacional de softwares desenvolvidos no Brasil até a prestação de serviços de desenvolvimento e manutenção de sistemas para clientes no exterior, consolidou-se como uma frente de receita relevante para um número crescente de empresas brasileiras de tecnologia. Diferentemente da exportação de bens físicos, que depende de logística de transporte internacional e de processos alfandegários específicos, a exportação de serviços de tecnologia costuma se materializar por meio de contratos de licenciamento ou de prestação de serviço faturados diretamente em moeda estrangeira, com o valor convertido para reais no momento do repasse ao exportador brasileiro.
Empresas que consolidaram uma base relevante de contratos internacionais de longo prazo passaram a buscar formas de antecipar esse fluxo de recebíveis em moeda estrangeira, de maneira semelhante ao que já ocorre com exportadoras de bens físicos, mas com particularidades específicas relacionadas à natureza contratual do serviço de tecnologia prestado.
Variação cambial soma complexidade à estruturação da operação
A estruturação de um fundo lastreado em recebíveis de exportação de serviços de tecnologia precisa considerar a exposição cambial inerente a contratos faturados em moeda estrangeira, uma vez que o valor efetivamente recebido em reais pela empresa exportadora pode variar de forma relevante entre o momento da prestação do serviço e o momento da conversão dos recursos, o que exige do administrador fiduciário e do gestor do fundo uma metodologia clara de precificação desse tipo de recebível.
Para Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, essa exposição cambial é um dos principais pontos de atenção na estruturação desse tipo de operação.
“Um recebível de exportação de serviços de tecnologia carrega uma variável adicional que não está presente em operações domésticas tradicionais, que é a exposição à variação cambial entre o momento da prestação do serviço e o efetivo repasse dos recursos. Isso exige metodologias de precificação e, em alguns casos, instrumentos de proteção cambial complementares à estrutura de crédito, para que o risco assumido pelo fundo seja adequadamente dimensionado”, afirma o executivo.
A ID CTVM atua como administradora fiduciária e custodiante de fundos estruturados voltados a diferentes segmentos da economia real, o que inclui operações lastreadas em recebíveis de exportação de serviços de tecnologia, aplicando a esses ativos processos de auditoria de lastro e conciliação adaptados às particularidades cambiais e contratuais desse tipo de operação internacional.
Diversificação entre clientes internacionais reduz risco geográfico
Empresas exportadoras de serviços de tecnologia que diversificam sua base de clientes entre diferentes países e regiões tendem a apresentar um perfil de risco mais equilibrado do que operações concentradas em um único mercado internacional, uma vez que fatores macroeconômicos específicos de um país ou região podem impactar de forma desproporcional a receita de exportadoras dependentes de um mercado concentrado. Essa diversificação geográfica se soma à análise tradicional de concentração de clientes já aplicada a outros setores financiados por meio de crédito estruturado.
Contratos de licenciamento com renovação automática anual, comuns em empresas de software corporativo, tendem a apresentar maior previsibilidade de receita do que contratos de prestação de serviço sob demanda, cuja renovação depende de nova negociação comercial a cada ciclo, o que também influencia a metodologia de análise aplicada pelo administrador fiduciário a cada tipo de contrato de exportação.
Natureza do contrato influencia o prazo médio de recebimento
Contratos internacionais de prestação de serviço de tecnologia costumam prever ciclos de faturamento distintos conforme o modelo de cobrança adotado, que pode variar entre pagamento único por entrega de projeto, cobrança recorrente mensal vinculada a contratos de licenciamento de software, ou modelos híbridos que combinam uma parcela fixa com valores variáveis atrelados ao volume de uso da solução contratada. Essa variedade de formatos exige que o administrador fiduciário compreenda, caso a caso, a mecânica contratual de cada recebível antes de sua incorporação à carteira de um fundo estruturado, de forma a projetar com precisão o fluxo de caixa esperado para a operação.
Empresas de tecnologia que mantêm presença física ou jurídica em mais de um país, ainda que de forma limitada, tendem a apresentar maior sofisticação na estruturação contratual de suas exportações de serviço, o que pode facilitar tanto a documentação exigida para a cessão de recebíveis quanto a interlocução com auditores independentes durante o processo de due diligence que antecede a estruturação de um fundo. Essa maturidade jurídica e operacional passou a ser considerada, de forma cada vez mais recorrente, como um fator relevante na análise de risco desse tipo de operação.
Perspectivas para o crédito estruturado na exportação de serviços
Com o setor de tecnologia brasileiro ampliando sua presença em mercados internacionais e um número crescente de empresas consolidando contratos relevantes de exportação de serviços, a tendência é que operações de crédito estruturado lastreadas nesse tipo de recebível ganhem espaço como alternativa complementar de capital para financiar a expansão internacional dessas companhias. Para administradores fiduciários especializados em operações com exposição cambial, desenvolver metodologias adequadas de precificação e monitoramento deve seguir como um fator relevante para sustentar a confiança de investidores nesse segmento em expansão do crédito privado.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.